Alcione embala peça sobre paixão sem pudor da francesa Annie Ernaux
No palco, um monitor de TV reproduz cenas eróticas que remetem ao início de "Paixão Simples", livro em que Annie Ernaux descreve sem pudores a radicalidade de uma relação amorosa. Em seu primeiro solo, Aline Fanju desce e senta na plateia do teatro para ver as imagens ao lado do público, por alguns segundos.
A primeira adaptação brasileira para o teatro de um livro da escritora francesa usa o recurso da quebra da quarta parede como alívio para a obsessão da personagem por A., um homem estrangeiro, mais jovem e casado. Ela dedica a ele todos os seus pensamentos enquanto aguarda a próxima tarde tórrida na cama com o amante.
Fanju é a narradora, a mulher apaixonada e, ao mesmo tempo, a atriz que vive o sonho de um monólogo planejado para ela, informação que é compartilhada com a plateia no início do espetáculo.
O convite veio do produtor Pablo Sanábio, que idealizou um solo para a amiga. Os dois iniciaram a maratona de leituras até encontrar "Paixão Simples".
"Uma mulher em idade madura falando de desejo, de paixão, de resgate de identidade. É um assunto universal, atemporal, que arrebata todas as gerações", diz Fanju.
A negociação com os representantes de Ernaux durou seis meses. A montagem foi autorizada a cortar e organizar trechos do texto, mas proibida de mudar qualquer palavra da tradução ou de incluir novas passagens.
No espetáculo, há trechos lidos em off e outros reproduzidos em um painel no palco. A própria escritora, prêmio Nobel de Literatura em 2022, aparece na encenação, em um quadro pendurado no quarto em que a personagem espera um telefonema de A. e vive anestesiada por uma mistura de lembranças e expectativas.
No auge da paixão, todo o resto perde o sentido para a mulher: os filhos já crescidos, os concursos bem sucedidos, as viagens para longe. As chateações do cotidiano também parecem sem importância. A escritora não dá bola para uma greve de dois meses dos Correios, perdoa o mau humor de funcionários de repartições e encara os congestionamentos como algo banal.
O que importa são as recordações das tardes de palavras quentes e carícias sensuais e os preparativos para o próximo encontro. Quem nunca?, pergunta a atriz e rapidamente encontra uma cúmplice na plateia. Com outra, ela divide uma dose de uísque, puro e sem gelo, em uma espécie de ritual empático entre mulheres que amam demais —pelo menos por um tempo.
"‘Paixão Simples’ é sobre o feminino em sua totalidade. Não é só a história da Annie, personagem do livro, não se resume à experiência individual de uma mulher específica. É sobre uma espera que atravessa os séculos. Uma espera ancestral, avassaladora, muitas vezes injusta, que na encenação ganha uma perspectiva alegórica que só o teatro pode oferecer", diz a diretora, Alessandra Colasanti.
Na alegoria, o telefone vermelho, que pode tocar a qualquer momento, é manipulado como um objeto erótico. Para ouvi-lo, a personagem abre mão de usar os barulhentos aspirador de pó e secador de cabelo. O arrebatamento também a leva a adiar o banho após o sexo, para carregar um pouco do homem em seu corpo depois que ele vai embora.
A dramaturgia é fiel a Ernaux, mas isso não impede a encenação de ter porções de brasilidade na trilha sonora. "Savage Funk", de Anitta, dá o tom da atmosfera sexual no quarto da escritora. "Sufoco", canção inesquecível na voz de Alcione, resume perfeitamente o desespero de ver o homem amado vestir a roupa, calçar os sapatos e bater a porta, na despedida.
Uma das preocupações da montagem é a de abordar as vivências sem julgamentos. "Paixão Simples" é de 1991 e foi relançado no Brasil pela editora Fósforo em 2023. O estilo direto contribui para que a história seja contada sem que a relação seja vista como uma disputa entre o vilão e a mocinha —e vice-versa.
Como no caso real, na peça a busca pela perfeição amorosa também é transformada em literatura, em uma espécie de salvação após o período de desejo insano.
"Graças a ele, eu me aproximei do limite que me separa do outro, a ponto de às vezes imaginar que iria chegar do outro lado", diz um dos trechos do livro.
Acompanhe a Recifes.net
Gostou desta leitura? Siga a Recifes nas redes e receba as proximas pautas no WhatsApp.
Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de redir.folha.com.br.