Como é a PokémonXP, feira que mistura euforia, filas e escapismo na era Trump
"Sem correr!", gritava uma funcionária. A ordem foi repetida várias vezes, por ela e outros colegas, logo cedo neste sábado (29), que amanheceu cinzento em Yerba Buena, na região central de San Francisco, Califórnia.
Eram homens feitos, balzaquianas de cabelos coloridos, millennials de roupas exuberantes, adolescentes de franja ou topete, gatos pingados de camisa social, crianças que arrastavam seus pais —e pais que arrastavam seus filhos. Gente de todo tipo e todo lugar, uns mais velhos e outros mais moços, formava uma multidão que saía em disparada pelos corredores no pavilhão sul do Moscone Center.
Eles corriam para garantir lugares em filas gigantescas, com centenas de pessoas, na esperança de conseguir um dos 12 broches exclusivos de "Pokémon" que logo esgotaram.
É a primeira edição da PokémonXP, convenção da marca japonesa da Nintendo, que completou 30 anos em 2026. A organização do evento afirma que um público de 50 mil pessoas compareceu nesse último fim de semana de agosto, entre sexta e domingo.
"Pois é, as pessoas gostam muito de broches", diz Christopher Brown, diretor de esports e eventos da Pokémon Company.
Em meio a guerras tarifárias e de drones, crises migratórias e climáticas, esses jovens adultos decidiram ocupar a mente com monstros fictícios, nem que só por um fim de semana, antes que chegue a segunda-feira e tenham que voltar a pensar em como vão se aposentar ou se vão sobreviver ao fim do mundo.
"Se a situação ficar fora de controle, não vamos ter outra escolha senão priorizar a segurança dos participantes", alertou Brown a jornalistas no sábado. Tiro e queda. A organização do evento achou melhor cancelar o "rally de pins" no domingo.
A sanha dos fãs pode ter preocupado o Corpo de Bombeiros de San Francisco, mas muito provavelmente gerou sorrisos entre os executivos da Pokémon Company. Afinal, o frenesi confirma o que todo mundo já sabia —a propriedade intelectual tem um apelo que poucas marcas conseguem alcançar.
A convenção é um conjunto de "ativações", ou ações de marketing, palestras e atividades que vão de tutoriais de pecinhas da Lego a oficinas de Pichus —criaturinha da saga de jogos— de massinha de modelar ou aulas de pokébolas —itens usados para capturar os monstrinhos— de crochê. E compras.
Assim como muitos dão o sangue para conseguir adquirir bolsas e relógios de luxo, fãs mais obstinados de "Pokémon" são capazes de fazer verdadeiras jornadas para adquirir itens exclusivos.
Ao anoitecer, no mesmo dia do ousado corre-corre, o conjunto completo de broches já estava sendo anunciado no eBay por US$ 1.000, cerca de R$ 5.180, mais de três salários mínimos brasileiros.
Na véspera da abertura do evento, durante o jogo de baseball do San Francisco Giants contra o Arizona Diamondbacks —que foi entremeado por ações de marketing de "Pokémon"—, um rapaz não tirava o olho do celular.
Ele negociava a compra de um Pikachu de pelúcia da Steiff, centenária marca alemã de brinquedos —era uma versão exclusiva para a PokemónXP. Ele estava aliviado pois havia conseguido comprar o rato elétrico de um intermediário pela bagatela de US$ 700, ou R$ 3.600. Na loja oficial, que já estava com seu estoque esgotado, o preço era de US$ 400, cerca de R$ 2.000. No eBay, tinha quem o anunciasse por US$ 2.000, em torno dos R$ 10 mil.
Não muito tempo depois de abrirem as portas do Pokémon Center, loja de produtos exclusivos da PokémonXP, a calçada começou a ficar intransitável. Ambulantes iam estendendo seus tapetinhos no passeio em frente ao Moscone Center para revender produtos para aqueles que não conseguiram ingresso para o evento.
O gerente de comunicação da Pokémon Company, Nick Salazar, reluta em comparar "Pokémon" a marcas de luxo. "É uma marca para todo mundo", diz. "Não é necessariamente para todo mundo ao mesmo tempo", pondera. "A ideia de haver múltiplas portas de entrada é justamente que exista algo para cada público."
A PokémonXP debutou este ano, mas o campeonato mundial dos jogos da franquia, que aconteceu junto à convenção em 2026, já tem mais de duas décadas de existência.
O mais tradicional é o jogo de cartas físicas, o "Trading Card Game", ou "TCG". Houve também o campeonato de "Pokémon Go", game em realidade aumentada que foi febre no Brasil pelos idos de 2016.
O jogo mais recente da marca, "Pokémon Champions", fez sua estreia no mundial, enquanto "Pokémon Unite" teve o seu último campeonato.
Foi justamente no derradeiro torneio de "Unite" que o Brasil quase levou a melhor. O Grêmio Esports chegou à semifinal, mas terminou em quarto lugar. No "Champions", os brasileiros Lucas Barbosa e João Felipe Leite, que concorreram em categorias de idades diferentes, também ficaram entre os quatro melhores. As finais levaram 15 mil pessoas para o Chase Center, às margens da baía de San Francisco.
A final de "Champions" é um show à parte. Os finalistas se enfrentam numa arena de leds piscantes, sentados em suas cadeiras gamer estofadas com o tema pokébola enquanto o público vibra por eles. Quando um Pelipper nocauteia um Venusaur, é uma gritaria. Quando um japonês evolui seu Dragonite, é uma ovação absoluta, uma coqueluche de vivas. Agora, quando o último Charizard vai à lona, aí é o ápice do desbunde.
Quem ganhou na categoria master foi Takuma Yamazaki, que comemorou sua vitória com um sorriso tímido.
Brown se orgulha do tamanho que o campeonato mundial alcançou. Foram 2.700 competidores este ano, o que é mais ou menos o mesmo número de atletas nas Olimpíadas de Inverno de 2026, ele faz questão de lembrar.
A lógica por trás de criar uma nova convenção acoplada ao velho campeonato é simples. Nem todo mundo que ia ao torneio competia —além de torcedores, também iam membros da família dos competidores e fãs da marca "Pokémon", que não necessariamente adoram a jogatina e a competição, e pareciam estar mais interessados em esvaziar os bolsos do que assistir às partidas. Fez todo o sentido matar dois Pikachus com uma cajadada só.
"A Pokémon XP tem o objetivo de passar uma mensagem clara: ‘Olha só, nós criamos algo especificamente para o público não competitivo’", diz Brown.
Desde 1998, foram lançados pelo menos 88 jogos de "Pokémon". A franquia começou com 151 monstrengos e hoje, após nove gerações, são 1.025. Foram também lançados 24 longas de animação e um live-action, além de uma infinidade de temporadas do anime e de spin-offs, como "Pokémon Concierge".
Há quem critique a frequência frenética de lançamentos de jogos da franquia, usando o argumento de que o ritmo acelerado permitiria menos esmero na produção de cada título. A leva mais recente da linha principal de games, "Scarlet"e "Violet", teve as notas mais baixas no agregador Metacritic entre seus pares.
Por outro lado, "Pokopia", um game colorido e fofinho que não faz parte da série principal, lançado em março deste ano, foi uma grata surpresa que hoje figura como o jogo mais bem avaliado de toda a marca. Só que este não é um jogo de competição.
Enquanto isso, "Pokémon Champions", que foi a grande vedete desta edição do campeonato mundial, alcançou uma nota agregada menor ainda que "Scarlet"e "Violet", de 67 em 100 no Metacritic. Mas a Pokémon Company quer mostrar que não dá muita bola para críticas negativas.
"Dá para dizer que ‘Pokémon Scarlet’ e ‘Violet’ são os jogos mais bem-sucedidos da linha principal de ‘Pokémon’, se você olhar para os números de vendas", diz Salazar, porta-voz da marca. "Então, no que diz respeito à nossa base de fãs mais fiel, esses jogos são adorados. É aí que está o nosso foco e onde sempre estará."
O jornalista viajou a convite da Pokémon Company
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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de redir.folha.com.br.