← Livros & Literatura Cultura

'Os Nomes', de Florence Knapp, parece exercício banal de oficina literária

07 de September de 2026 2 leituras
'Os Nomes', de Florence Knapp, parece exercício banal de oficina literária
Foto: Abraham Casas (Gatodemichi) / Pexels

Não é segredo para ninguém que um best-seller é um livro que costuma agradar ao público e desagradar aos críticos.

Comercialmente viáveis, essas obras não seduzem júris de prêmios literários prestigiosos e aparecem nas faturas de cartão de crédito com a mesma velocidade que vão desaparecer das prateleiras das livrarias.

Best-seller é, por definição, um sucesso comunicacional, mas não necessariamente artístico. Saber de tudo isso, contudo, não diminui a frustração resultante da leitura de "Os Nomes", sucesso de vendas de Florence Knapp, publicado no Brasil com tradução de Juliana Romeiro.

Sem coragem estética nem ousadia social, o romance decepciona onde poderia surpreender. Tudo o que a escritora britânica engendra em uma linha, ela destrói na seguinte, com uma prosa limitante na qual as personagens parecem mais interessantes quando saem de cena do que quando estão nela.

A força de uma história de violência doméstica —anunciada com razoável habilidade nas primeiras páginas— rapidamente cede lugar a uma fábula banal sobre o poder da linguagem em transformar o mundo que nos cerca.

"Os Nomes" tece uma trama em que a protagonista, Cora, define futuros alternativos para o filho pela decisão de registrar o garoto com um nome diferente daquele escolhido pelo seu marido abusador.

Assim, a autora sugere haver possibilidade de triunfo individual em trajetórias que têm no epicentro o problema, justamente, da ausência de condições viáveis para o êxito do indivíduo.

A forma mecanizada como os personagens se comportam sugere que estamos lendo um exercício de prosa de uma oficina literária, um expediente de prestidigitação literária que não fascina nem pela linguagem nem pelo enredo.

O maniqueísmo da voz narradora —dominante durante todo o livro— garante certo conforto moral a quem lê. Ao encerrar o mal em figuras que parecem dignas de ser chamadas assim, há uma tentativa de enjaular esse mal, limitando o alcance de suas ações.

Mas, diferentemente do que acontece na vida real (sim, existe vida real), na literatura o recomendável seria o extremo oposto: soltar o mal, para que a ficção não se torne o altar falsificado onde seres humanos ordinários são santificados apenas porque se parecem conosco.

"Os Nomes" é, afinal, um livro que pode funcionar como companheiro eventual de voos curtos, de viagens de ônibus e em trânsitos nos quais até mesmo a leitura de uma bula de anti-inflamatório ajuda a matar o tempo. Serve, portanto, para atravessar horas insossas, mas é insuficiente para melhorá-las.

"O que há em um nome?", perguntou certa vez o bobo Romeu. Bem, às vezes, nada.

Acompanhe a Recifes.net

Gostou desta leitura? Siga a Recifes nas redes e receba as proximas pautas no WhatsApp.

Rodapé editorial

Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de redir.folha.com.br.

Compartilhar:
Leia também